Do the revolution



Alguém devia informar o Bjarke Ingels que, como arquitecto, ninguém é suposto ser tão bem parecido e brilhante ao mesmo tempo. Os arquitectos brilhantes são carecas e usam óculos de massa. Seja como for, tive a sorte de escutar uma das suas apresentações há alguns anos e identifiquei-me bastante com as suas críticas à retórica pré-concebida da avant-garde arquitectónica. Essas mesmas ideias estão na base da sua recente conferência no TED, seguindo-se a exposição de várias obras do estúdio BIG; desde os projectos média escala das VM Houses e o edifício Mountain Dwellings em Copenhaga (ambos em colaboração com Julien de Smedt), à criação mais recente do Zira Island Masterplan.
Bjarke oferece um olhar sobre os processos criativos diagramáticos que se tornaram uma assinatura dos arquitectos da geração Rem, como Winy Maas e Joshua Prince-Ramus - este último, aliás, também teve uma excelente participação no TED há já alguns anos.

Someone should have warned Bjarke Ingels that, as an architect, no one is supposed to be that good looking and brilliant the same time. Brilliant architects are required to be bald and wear large spectacles. [+/-]
Seriously, though, I was fortunate to listen to him a couple of years ago and his ideas on the pre-conceived rhetoric of the architectural avant-garde sure made a lot of sense to me. Those same notions are introductory to his conference at TED, following a presentation of several high profile projects from BIG, from the mid-scale VM Houses and Mountain Dwellings in Copenhagen (both done in collaboration with Julien de Smedt), to his latest large-scale creation of the Zira Island Masterplan.
Bjarke offers an insightful glimpse of the creative diagramming processes that have become a signature method of the architects of the Rem generation, such as Winy Maas and Joshua Prince-Ramus - the latest of which, by the way, also had a fabulous presentation on TED a few years ago.

A arquitectura, às vezes, também me chateia



A sério. Eu não quero ter mau feitio. Mas a arquitectura, às vezes, também me chateia. É que parece que vivo no país dos Mister Glasses. Acho que os meus colegas arquitectos pensam que somos todos parvos. Parece que é coisa da arquitectura contemporânea, aquela com “linhas modernas”, genuína da Bayer. Vocês sabem. As caixas brancas suspensas no ar. Eu cá não sei, mas parece que imaginamos o povo como uma cambada de tolinhos a “extasiar” perante as paredes brancas. Paredes não, paramentos, que é mais poético. Eis, então, tudo a extasiar perante os volumes hirtos no horizonte. Coisa linda. E depois aquelas rampas, é sempre importante meter umas rampas o mais compridas possível. Não interessa de onde vêm e para onde vão. É importante é estarem lá, a fazer rima na poesia. Como a arquitectura, não precisam de ir a lado nenhum. E que dizer daqueles espaços exteriores, ermos de terra batida. É que agora até está na moda meter uns animais nos renders, é um trend, sabem? Mas, nestes projectos, nem as vacas lá podem pastar. Fico sempre sem saber se faltou o dinheiro ou faltou a inteligência. Quer-me parecer que faltou o primeiro por falta da segunda.
É que me dá cá umas comichões nos neurónios que fico a pensar que prefiro uma boa casa de emigrante. Que diabo. Essa ao menos diz-nos coisas, está cheia de pequenas pérolas de sociologia. Sim, os autores podem ser uns labregos, mas estão vivos, vibraram com aquele azulejo, sonharam com aquela escada saída de uma casa de estrunfe como viram na telenovela. Estão refucilando alegremente na charca da vida. A mim, às vezes, confesso, também me apetece.

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Eu nunca quis ser jovem

Eu nunca quis ser jovem. O que queria era ter história. Estas palavras de Lina Bo Bardi são hoje tão contra-corrente que merecem reflexão. O modo como encaramos o acto de envelhecer muda durante o percurso de uma vida inteira. Todos sabemos, em abstracto, que vamos morrer um dia. Mas, enquanto jovens, a abstracção esmaga-lhe o significado. É bom ser imortal.
Recordo-me do tempo em que envelhecer tinha um sentido de desfasamento das coisas. Ficar velho é perder o fio da contemporaneidade, é o caminho para a incompreensão do presente, na linguagem, na música, na moda. Ah, quanta arrogância.
Há um momento na vida em que a morte, por uma conjugação de factos, se torna real. Percebemos que a morte está lá, algures na nossa frente, inevitável. Para alguns a consciência trará temor, angústia. Para todos, talvez, um enorme sentido de perda das coisas, de toda a experiência, todo o saber que se vai perdendo em nossa volta, até que nós próprios nos extingamos, um dia, no vazio do esquecimento dos outros.
Presumo que não seja fácil ser jovem, hoje. Mergulhados num mundo que os envolve em subtilezas, adquirindo comportamentos, costumes, códigos invisíveis. Curioso que a sociedade da televisão produza uma imagem eternamente rebelde dessas criaturas mitológicas, para citar João Lopes, estereotipada à exaustão em mil e uma novelas “para jovens”. Uma estética desalinhada, no penteado, nas calças descaídas, no estilo informal, simulação perfeita de uma irreverência toda ela ficcionada. Quem leia o conteúdo pela superfície tomará essa imagem como digna dos novos hippies, de tão ostensivamente anti-sistema. E no entanto, nos mais pequenos pormenores, se denuncia o afinco de um produto de consumo desenhado em laboratórios de marketing social, fabricando pequenos seres para quem a vida não faz sentido sem os seus iphones e ipods.
Não, não é fácil ser jovem, hoje. Não é fácil resistir aos estrategas dos targets que barricaram o seu trajecto, implacáveis. Não é fácil compreender que nem sempre o que somos e o que pensamos nasceu na nossa cabeça. Que as convicções, os gostos, os desejos, até a formatação dos afectos, nos é incutida por uma profusão de veículos externos afinados para nos seduzir como esponjas.
Sei que estou a ficar velho. Pertenço a uma geração sem causas. A minha geração não tem nada que a defina para além de uns programas de televisão e umas gasosas que deixaram de existir. Não, nós não fizemos nenhuma revolução, não protagonizámos nenhum conflito de gerações, não vislumbrámos nenhum sentido, não erguemos nenhum símbolo, não alvitrámos doutrina em que valesse a pena erguer uma sociedade. Na melhor das hipóteses, mostrámos o rabo a um qualquer ministro por causas fúteis há muito esquecidas de todos.
Somos uns rebeldes na nossa cabeça. Uma coisa apenas nos define. Não gostamos muito uns dos outros. Mal educados para a vida em comunidade, somos complacentes com os nossos defeitos que intoleramos, passe a palavra, em todos os outros. Desengane-se quem tome tal por desatenção ou charme latino. É, tão só, uma tragédia.
Sim. Eu sei que estou a ficar velho.

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District 9


O que pensar de um herói tão detestável como este Wikus Van de Merwe, funcionário servil da corporação sem escrúpulos que gere uma colónia de refugiados extraterrestres sitiados nos arredores de Joanesburgo, em District 9? Wikus persiste, em toda a sua pequena humanidade, em nome do mais mesquinho interesse próprio. E, de certo modo, a história deste filme é exactamente sobre esse percurso de descoberta da humanidade no lugar mais cruel do mundo.
Haverá por aqui material bem reconhecível aos cinéfilos mais geeks da plateia, entre exoesqueletos robóticos e armas gravitacionais dignas do senhor Gordon Freeman. Mas D9 revela uma energia que há muito não víamos no sub-género de acção sci-fi, em tempos trilhado pelos jovens James Cameron e Ridley Scott. Esta primeira obra de Neill Blomkamp é a antítese dos encontros imediatos de Steven Spielberg. Um filme de ficção científica para uma década de desagregação total, resgatando entre os escombros um derradeiro gesto capaz de redimir o mais improvável dos heróis do cinema.

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Exposição Mirrorcities – Lisboa / Tóquio



Duas cidades distantes retratadas diariamente por duas mulheres. Olhares que partem de um mesmo tema para descobrir analogias e contrastes na realidade quotidiana de Lisboa e Tóquio. Um ensaio fotográfico que começou como blog e que agora se apresenta através da exposição Mirrorcities patente no Museu do Oriente. Fotografias de Sara Lopes Godinho (aka Sushi Lover) e Patrícia Chorão Ramalho, para descobrir até ao dia 1 de Novembro.



Two distant cities portrayed by two women. Images that share a common theme, exploring the similarities and differences concealed in the daily life of Lisbon and Tokyo. A photo essay that began as a blog and is now revealed in an exhibition titled Mirrorcities. Photography by Sara Lopes Godinho (aka Sushi Lover) and Patrícia Chorão Ramalho, on display at the Lounge space of the Oriente Foundation Museum until November 1st.