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Paroxismos

Image credits: Iñaki Otaola.

O cidadão avisado tenderá a franzir o nariz sempre que um comentador se entrega ao exercício de presumir o que “as pessoas” pensam. “As pessoas” serão, à luz das sábias luminárias que comentam os assuntos do dia na televisão, nos jornais e nos blogues, uma massa de pouca espessura mental cujo pensamento pode ser, rigorosa e cientificamente, auscultado através do mural do Facebook.

Aos pais



O desejo de criar é igualmente forte em todas as crianças. Meninos e meninas.
É a imaginação que importa. Não a habilidade. Cada um deve construir aquilo que lhe vem à cabeça, da forma que quiser. Uma cama ou um camião. Uma casa de bonecas ou uma nave espacial.
Muitos meninos gostam de casas de bonecas. Elas são mais humanas do que as naves espaciais. Muitas meninas preferem as naves espaciais. Elas são mais excitantes do que as casas de bonecas.
A coisa mais importante é colocar o material certo nas suas mãos e deixá-los criar aquilo de que mais gostam.


Uma pequena nota da Lego enviada aos pais dentro dos seus conjuntos de peças durante a década de 1970. Via Kottke.

Para onde vão os comentários do Diário Económico? Talvez para Nárnia...

Há cerca de uma semana Vital Moreira publicou um artigo no Diário Económico sobre o polémico TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership).

Eu hoje acordei assim



Obrigado e bom dia.

Ar-cat-ectural digest



It is my firm belief that thousands of years of architectural history have been leading us to this very moment. Indeed, one day, all buildings will look like cats. More images of this pretty looking school can be found here. ‘Tis glorious…

Serviço público



Um post do tipo "fui eu que inventei isto". Não liguem...

Christmas Gifs galore


Man With Sparrows, by Thoka Maer.

Here’s everything you need to decorate your blog or website during this holiday season, a collection of highly irreverent Christmas Gifs curated by London-based artist/designer Ryan Todd. The project is now on its second year so make sure not to miss last year’s entries, they’re just as wacky. Via Fast Company.

Eis tudo aquilo que precisam para decorar o vosso blogue durante esta época festiva, uma colecção de Gifs Natalícios promovida pelo artista londrino Ryan Todd. O projecto está agora no seu segundo ano, por isso não percam as imagens igualmente loucas do ano anterior. Via Fast Company.

Parcerias público-privadas à portuguesa



A Brisa Auto-Estradas é visada no relatório Out of Control: The Coast-to-Coast Failures of Outsourcing Public Services to For-Profit Corporations, publicado pela ONG americana In The Public Interest. O documento dá a conhecer um conjunto de más-práticas em matéria de parcerias público-privadas, de cujos contratos resultaram perdas para as entidades estatais e prejuízos para os cidadãos.
A empresa portuguesa detém a concessão da Northwest Parkway, uma auto-estrada circular da cidade de Denver, no Colorado. Segundo o relatório, em 2008, o consórcio interpôs uma acção judicial contra a municipalidade de Denver impedindo o governo local de proceder a melhoramentos numa estrada próxima daquela via rápida.
O contrato, que prevê um período de exploração da infraestrutura por 99 anos, inclui cláusulas que obrigam a entidade estatal a compensar financeiramente a concessionária caso venha a intervir na rede viária próxima ou construir novas estradas que possam afectar a sua rentabilidade.
A cidade vê-se assim impedida de actuar na rede rodoviária envolvente da Northwest Parkway durante quase um século, mesmo que as necessidades dos residentes e os seus padrões de mobilidade se alterem, a não ser que aceite indemnizar o grupo privado. Via Gawker, ZAP.

Certificar é preciso


O processo de certificação energética de um pequeno apartamento, que custa no Reino Unido cerca de 72 euros, custa 250 euros em Portugal.

É verdade que a Directiva Europeia de Desempenho Energético de Edifícios (EPBD), redigida em 2002 e revista em 2010, exige aos estados membros a introdução de legislação no sentido de assegurar que a venda ou aluguer de edifícios seja acompanhada da emissão prévia de um certificado energético. No entanto, nada nessas normas obriga à instituição dos pesados valores de multa – que vão dos 250 aos 45 mil euros – que o Estado Português agora decidiu deliberar contra os proprietários que publicitem os seus imóveis e não tenham a respectiva certificação.

Pelo contrário, as recomendações da Comissão Europeia nesta matéria vão no sentido de promover o esclarecimento dos cidadãos, através de campanhas de sensibilização, com vista a melhorar a sua confiança nas vantagens da certificação e do apuramento da classe energética das suas casas – ver o estudo Energy performance certificates in buildings in their impact on transaction prices and rents in selected EU countries, de 20 de Junho de 2013.

Neste documento a Comissão sublinha que a eficácia das políticas nacionais depende de factores diferentes de país para país, relevando a importância de estabelecer incentivos, fiscais ou outros, à certificação energética. A título de exemplo, o Reino Unido estabeleceu desde 2011 um programa de estímulo que permite aos cidadãos financiarem os trabalhos de melhoramento energético das suas habitações, recebendo um apoio do Estado que é posteriormente reembolsado em prestações através da conta da electricidade ou do gás, a um custo nunca superior ao valor estimado das poupanças obtidas.

Contrariamente a outros países europeus Portugal escolhe reforçar a via punitiva, colocando sobre os proprietários de casa para venda ou arrendamento a ameaça de aplicação de multas pesadas em caso de incumprimento. É mais um exemplo do modo como o Estado se relaciona com os agentes privados, alheio à necessidade de estabelecer a confiança e a mobilização do público, antes optando pela atitude persecutória e castigadora.

Mas o caso é, infelizmente, bem mais grave. O sistema de certificação energética, benévolo nos seus princípios, tornou-se em Portugal um caso de oportunismo e exploração dos cidadãos. É injustificável que os processos de certificação energética custem, no nosso país, cerca de 250 euros (para um T0 ou um T1), quando o mesmo procedimento custa, no Reino Unido, 60 libras (72 euros) – não ultrapassando o valor de 120 libras no caso de uma residência de maiores dimensões.

Igualmente grave é o modo como o Estado Português faz ainda incidir sobre estes processos taxas elevadas como forma de subsidiar a entidade certificadora. As multas agora legisladas pelo Estado são, aliás, uma forma de abrir um novo filão de financiamento estatal, perseguindo os cidadãos e evitando-se a uma necessária reforma da sua infraestrutura burocrática.

Os preços desproporcionados e as taxas que incidem sobre estes procedimentos são custos intermédios pesados e inúteis que se fazem incidir sobre o mercado da construção, venda e arrendamento de habitação, dos quais não se extrai qualquer valor ou vantagem. Pelo contrário, constituem mais factor de agravamento na recuperação da nossa economia. Como sempre, o país acaba por fazer, em nome dos melhores princípios, as piores práticas.

Light the pepperoni



Your week won’t be complete before watching this light installation entirely made of… pepperoni! It’s pretty low cost, and… eatable? Proposed by Luzinterruptus for A di Città, a local festival in Rosarno, Italy.

A vossa semana não estará completa sem verem esta instalação luminosa inteiramente feita de… pimentos! É muito low-cost e… comestível? Uma proposta do grupo de artistas anónimos Luzinterruptus para o festival local de Rosarno A di Città, em Itália.

Fit for architects: your portable ego container



Okay, I know these two are completely unrelated but I just couldn’t help it. The image above is a picture of two creative designers wearing a Diving Bell, a cardboard headpiece used to explore the outside world in search of new ideas (via Designboom). It just occurred to me that something similar should be used as a portable ego container, and that it should be mandatory for architects to wear it when communicating with clients and the general population. And on that topic, I’ve just spotted an older post by Bob Borson on The Architect’s Ego that I recommend to everyone.

Eu sei que não existe aqui relação mas não consegui resistir. A imagem acima é um retrato de dois designers a usar um capacete de cartão chamado Diving Bell, recomendado para a exploração do mundo exterior em busca de novas ideias (via Designboom). Ocorreu-me apenas que algo semelhante devia ser utilizado como contentor portátil do ego, e que devia ser de utilização obrigatória para arquitectos em momentos de comunicação com clientes e com o público em geral. Nesse mesmo tópico, passei por um texto mais antigo do Bob Borson sobre isto mesmo; a ler, The Architect’s Ego.

Tiled



A Tiled está a desenvolver uma linha de roupa inspirada na azulejaria portuguesa. Um projecto de design bastante promissor, ainda em lançamento mas que começa a despertar curiosidade um pouco por todo o lado. Está no Facebook, tem blogue e ainda, para os mais nerds, um tumblelog que vale a pena visitar.

Convenhamos…

Um indivíduo congemina uma casa toda quitada com design do mais cat-friendly que há e mesmo assim a suaexcelência julga por bem usar o laptop para assento do seu derriére. Ele há coisas…



Mais imagens da simpática I-CHI Cat House no Fubiz. O projecto é do atelier Hey!Cheese.

Tell a Story, uma livraria sobre rodas




Portuguesa com certeza, a Tell a Story é uma livraria móvel que circula pelas ruas de Lisboa. Esta gloriosa Renault Estafette branca e azul tem como paragem preferencial o Jardim do Príncipe Real (entre os dois quiosques) mas circula regularmente pela zona baixa da cidade e tem tudo para se tornar rapidamente numa parte inconfundível da nossa iconografia. Via Sound + Vision. Edit: o DesignBoom publica uma excelente selecção de fotografias com todo o trabalho de design desenvolvido pela MSTF Partners para a marca Tell a Story, incluindo a concepção do seu sítio web oficial.

Momento de recreio





A artista japonesa Toshiko Horiuchi MacAdam dedica-se à construção de estruturas de rede de grandes dimensões, em fibra e em crochet. Conta a lenda que, um dia, um grupo de crianças confundiu uma das suas instalações, julgando tratar-se de um objecto de recreio. Ao ver uma das suas esculturas ganhar vida, esta artista plástica começou a projectar diversos parques de recreio infantil no Japão, construídos com redes de crochet de muitas cores. Via Flores en el Ático.

Momento geek



A Força é grande nesta banheira mas solicita-se a todos os Wookies que não deixem vestígios no ralo. Via Hello You Creatives.

A Barriga de um Arquitecto Gourmet


Já à venda nos melhores hipermercados do país. Nos outros não.

É que toda a gente que é gente escreve um livro de culinária. Ele é o Miguel Sousa Tavares, ela é a Helena Sacadura Cabral, a Clara de Sousa… Tanta celebridade na cozinha ainda vai dar cabo da vida ao Sá Pessoa e eu até acho mal. Qualquer dia temos o livro de Aventuras Gastronómicas do Alberto João Jardim, ou a Cozinha Presidencial de Maria Cavaco Silva, ou ainda as Receitas Poupadas do Medina Carreira. Mas a verdade é que vai para aí uma crise daquelas e isto agora é cada um por si. Por isso A Barriga de um Arquitecto apresenta ao mundo a sua primeira publicação gourmet. Das entradas pós-modernas ao sushi minimal, passando ainda pelos segredos da cozinha molecular explicada através de diagramas bonitos a cores, há de tudo um pouco e para todas as bolsas. Os primeiros a encomendar recebem ainda uma edição assinada por um indivíduo. Eu não, porque tenho mais que fazer. Mas alguma coisa se há-de arranjar. Enfim, é comprar antes que esgote…

A velocidade mata depressa: o papel do urbanismo na prevenção rodoviária



Não acontece só aos outros

Há cerca de uma semana participei numa acção de formação promovida pela Prevenção Rodoviária Portuguesa sobre «Intervenção na infra-estrutura para redução da velocidade». Trata-se de uma iniciativa que pretende sensibilizar os diversos profissionais da área do urbanismo para as questões da engenharia de segurança rodoviária, em particular pelos riscos que a velocidade de tráfego coloca para todos aqueles que circulam no ambiente urbano. A vida, é certo, não é isenta de estranhas ironias. No dia seguinte à formação, numa viagem a Lisboa em dia de chuva, eu e a minha mulher vimo-nos perante um despiste do nosso automóvel de que resultou o embate violento contra os separadores da via. O carro, que ficou em muito mau estado, e as dores que nos vão acompanhar durante longas semanas, fazem prova do momento dramático que vivemos. Passado o aparato e o susto, procurando regressar à normalidade, tentámos brincar com a situação dizendo que durante a semana tinha tido aulas teóricas e no fim-de-semana a aula prática. Mas a verdade é que as imagens daqueles segundos terríveis, quando se pensa que o pior pode estar prestes a acontecer, ficarão gravadas nas nossas mentes durante muito tempo.

A velocidade mata depressa

Todos sabemos que a velocidade tem uma relação directa com os riscos da sinistralidade rodoviária. No entanto somos levados a confiar no sentimento de segurança transmitido pela tecnologia automóvel. Com os seus mecanismos de insonorização e estabilização das irregularidades da estrada, os carros fazem-nos esquecer que as leis da física se mantêm independentemente da tecnologia que nos leva a bordo. É certo que a engenharia automóvel salva vidas, com a sua capacidade de amortecimento de impacto em situações de acidente. Mas esquecemos facilmente que as capacidades humanas são as mesmas que sempre foram, com as suas falhas, resistências, limites e tempos de reacção.
As estatísticas da sinistralidade demonstram-nos com frieza o que está em causa. O risco de morte de um ocupante de um veículo ligeiro em caso de colisão frontal a 90 km/h é de cerca de 50%. Acima de 120 km/h, a probabilidade de morte abeira-se da totalidade. Mais do que isso, devemos ter sempre em presença que as estatísticas não são sobre números e que cada número conta uma história sobre vidas humanas, daqueles que morrem, dos que ficam gravemente feridos, dos seus familiares e amigos.



Uma das estatísticas mais surpreendentes para compreendermos os perigos da velocidade, em particular no espaço urbano, prende-se com o risco de morte em situações de atropelamento. Para os carros potentes dos nossos dias, uma variação de 20 quilómetros horários pode significar um ligeiro pressionar de acelerador, uma breve desatenção. E, no entanto, o risco de fatalidade aumenta de 5% para 45% entre as velocidades de 30 e 50 km/h. A 70 km/h esse risco é de 90%, ou seja, quase total.

Uma sociedade motorizada

Os acidentes de trânsito são a maior causa de morte violenta. Traduzindo: morrem mais pessoas nas estradas do que nas guerras que se travam no mundo. Os prejuízos para a sociedade multiplicam-se a muitos níveis: prejuízos humanos impossíveis de quantificar em vítimas mortais e feridos graves, nos custos de saúde, nas consequências emocionais e sociais, nas perdas de produtividade.
A sociedade portuguesa apresenta uma taxa de motorização muito superior à dos países do Norte da Europa. Vários factores contribuem para esta realidade: motivos de natureza social mas também o sentimento de ausência de alternativas que resulta de um mau planeamento das cidades, cujo crescimento foi alheio à organização de redes eficazes e próximas de transporte público acessível. Ainda assim, o bom trabalho efectuado na última década pelos vários intervenientes da prevenção rodoviária, no traçado das estradas, na vigilância e na sensibilização dos condutores, tem tido como resultado uma redução significativa dos casos de mortalidade nas estradas portuguesas. Mas o nosso país continua a apresentar uma taxa de mortalidade por atropelamento superior à média europeia, facto ainda mais dramático se considerarmos que estes mortos representam 46% do total da sinistralidade rodoviária, e que dentro destes a grande maioria são idosos e crianças (71%).

O papel do urbanismo

Para fazer frente a este problema começam hoje a ser ponderadas estratégias de acalmia de tráfego rodoviário, integrando o conceito de estrada «auto-explicativa» ao meio urbano. Trata-se de uma forma de induzir o bom comportamento através de uma correcta manipulação da percepção do condutor, introduzindo alterações ao ambiente da rua recorrendo a condicionalismos físicos, sinalização, equipamentos e outros elementos caracterizadores da rodovia.
É um trabalho que se estende ao domínio do desenho urbano chamando a si todos aqueles que intervém no planeamento das cidades: não apenas os profissionais da engenharia rodoviária mas também os urbanistas, arquitectos e paisagistas. Acima de tudo, importa compreender que estão em causa requisitos funcionais e normativos que são muitas vezes alheios à nossa formação de base mas cujo conhecimento e interiorização pode salvar vidas. É um tema muito extenso e a que voltarei aqui no blogue, mas de que deixo desde já a referência a duas publicações importantes publicadas pela Prevenção Rodoviária Portuguesa: o manual «Engenharia de Segurança Rodoviária em Áreas Urbanas: Recomendações e Boas Práticas» da autoria do Eng. João Sousa Marques, e ainda o livro «Recomendações para Definição e Sinalização de Limites de Velocidade Máxima» do Eng. João Cardoso.

Informação, conhecimento, sabedoria

O meu caso pessoal fez-me reflectir sobre a diferença entre informação, conhecimento e sabedoria. Tive a oportunidade de recolher muita informação sobre o tema da prevenção rodoviária, sobre os perigos da velocidade e as estatísticas da sinistralidade. Tinha bem presentes as palavras do Eng. João Cardoso, quando nos disse que em alturas de chuva os condutores reduzem a velocidade em valor inferior ao do risco acrescido pela perda de atrito do pavimento. Mas foi a experiência de um acidente que me fez traduzir essa informação em conhecimento, ao sentir a forma como esses números abstractos podem ter um impacto real nas nossas vidas.
Falta, no entanto, um passo ainda. É necessário desenvolver uma consciência mais profunda do que tudo isto significa para transformar o conhecimento em sabedoria, naquilo que nos faz alterar atitudes e mudar comportamentos. Pois é a sabedoria que salva vidas; mas a sabedoria não se ensina. E por isto é importante que todos demos um contributo, partilhando o conhecimento dos perigos para lá da abstracção dos números. E possa assim, cada um de nós, interiorizar esse conhecimento e, quem sabe, tomar pequenas decisões que podem, um dia, mudar o nosso destino.

Dreaming Wall

Dreaming Wall é um interessante projecto de arte urbana em exibição numa praça da cidade de Milão. Uma projecção de mensagens SMS expostas de forma aleatória sobre a fachada vazia de um edifício que torna o espaço público num info-forum, lugar de fusão entre a cidade e o sub-texto do mundo da comunicação e da web.



Mais informações no sítio web Conceptual Devices e na página oficial do Dreaming Wall.

Via: Digital Urban.

Terra dos Homens

E eis que me recordo, na derradeira página deste livro, desses burocratas envelhecidos que nos serviram de comitiva na madrugada do primeiro correio, quando preparávamos a nossa transformação em homens, porque havíamos tido a sorte de ser escolhidos. Não é que eles não fossem semelhantes a nós, mas ignoravam em absoluto que estavam famintos.
Há gente de mais que se deixa dormir.

Aqui há anos, no decorrer de prolongada viagem de caminho de ferro, apeteceu-me visitar essa pátria em marcha na qual eu me fechara por três dias, por três dias prisioneiro desse ruído de calhaus rolados pelo mar, e levantei-me. Por volta da uma hora da manhã percorri o comboio de lés a lés. As carruagens-cama estavam vazias. Vazias estavam as carruagens de primeira.
Mas as carruagens de terceira abrigavam centenas de operários polacos despedidos de França e que regressavam à sua Polónia. E eu percorria os corredores de ponta a ponta passando por cima de corpos. Parei para observar: de pé, à luz das lampadazinhas eléctricas, distinguia nesse vagão sem compartimentos, e que se assemelhava a uma camarata que tresandava a caserna ou a esquadra de polícia, toda uma população confusa e agitada pelos movimentos do rápido. Todo um povo mergulhado em pesadelos e que regressava à sua miséria. Grandes cabeças rapadas bamboleavam-se na madeira dos assentos. Homens, mulheres, crianças, todos se voltavam dum lado para o outro, como que atacados por todos esses ruídos, todos esses solavancos que os ameaçavam no seu letargo. Não tinham achado a hospitalidade de um bom sono.

E eis que eles me pareciam ter perdido parte da sua condição humana, sacudidos dum extremo ao outro da Europa pelas correntes económicas, arrancados à casinha do Norte, ao jardim minúsculo, aos três vasos de gerânio que eu vira outrora nas janelas dos mineiros polacos. Haviam reunido somente os utensílios de cozinha, os cobertores e as cortinas, em embrulhos mal atados e rasgados por hérnias. Mas tudo o que haviam acariciado ou atraído, tudo o que tinham conseguido domesticar em quatro ou cinco anos de permanência em França, o gato, o cão e o gerânio, haviam sido obrigados a sacrificar e não levavam consigo senão as baterias de cozinha.

Uma criança mamava numa mãe tão cansada que parecia adormecida. A vida transmitia-se no absurdo e na desordem dessa viagem. Eu considerei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo curvado no sono desconfortável, comprimido no fato de trabalho, feito de altos e baixos. O homem fazia lembrar um montão de argila. Assim, despojos informes carregam à noite os bancos dos mercados. E eu pensei: o problema não reside de maneira alguma nesta miséria, nesta imundície, nem nesta fealdade. Mas este mesmo homem e esta mesma mulher um dia conheceram-se e o homem certamente sorriu à mulher e por certo depois do trabalho trouxe-lhe flores. Tímido e desajeitado, tremia talvez à ideia de se ver repelido. A mulher, porém, por garridice natural, a mulher segura da sua graça, divertia-se porventura a inquietá-lo. E o outro, que hoje não é mais que uma máquina de cavar ou de martelar, experimentava desse modo uma angústia deliciosa no coração. O mistério está em que eles se tivessem tornado nestes volumes de argila. Em que terrível molde foram metidos e por ele marcados como por uma máquina de embutir? Um animal envelhecido conserva a sua graça. Por que razão este belo barro humano se estragou?

E eu prossegui na minha viagem por entre este povo cujo sono era turvo como um prostíbulo. Pairava no ar um vago ruído feito de roncos roucos, de gemidos débeis, do raspar dos sapatorros dos que, maçados de um lado, experimentavam o outro. E sempre em surdina esse interminável acompanhamento de seixos revolvidos pelo mar.

Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, o filho, bem ou mal, aninhara-se e dormia. Mas a dormir voltou-se e o seu rosto surgiu-me à luz da lampadazinha. Ah! que rosto adorável! Nascera daquele casal uma espécie de fruto dourado. No meio dessa grosseira manada nascera este prodígio de encanto e de graça. Debrucei-me sobre essa fronte lisa, sobre esse doce trejeito dos lábios, e disse de mim para mim: eis um rosto de músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das histórias em nada se diferenciavam dele: protegido, resguardado, instruído, que não poderia ele vir a ser! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma nova rosa, eis que todos os jardineiros se comovem. Isolam a rosa, cultivam a rosa, protegem-na. Mas para os homens não há jardineiro algum. Como os demais, Mozart menino será marcado pela máquina de embutir. Mozart fará as suas alegrias mais altas da música de pacotilha, na fedorentina dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

E regressei à minha carruagem. E ia dizendo de mim para mim: estas pessoas quase não sentem a sua sorte. E aqui não é a caridade que me atormenta. Não se trata de nos enternecermos por causa duma chaga eternamente reaberta. Aqueles que a têm não a sentem. Quem é ferido aqui, quem é lesado, é qualquer coisa como a espécie humana e não o indivíduo. Creio pouco na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é de modo algum aquela miséria, onde afinal de contas nos instalamos do mesmo modo que na preguiça. Gerações de orientais vivem na imundície e folgam com isso. O que me atormenta não são aquelas covas, nem aquelas bossas, nem aquela fealdade. É um pouco, em qualquer desses homens, Mozart assassinado.


– Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry.