[comoção no reino]

Sexta-feira



Qual intriga palaciana, eis a nobreza incomodada com as liberdades da prosa do seu trovador-mor. A história parecia ainda assim não merecer mais do que as palhaçadas de um bobo qualquer. Eis então que uma grande comoção se abate na corte, revelando manobras ocultas de duvidosa índole. Há algo de podre neste reino...

Portugal entrou no tempo da tragicomédia. Rui Gomes da Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares, vem a terreiro manifestar o seu repúdio pelos comentários de “ódio” feitos pelo ex-presidente do PSD aos domingos no Jornal da Noite da TVI. Declarava a sua surpresa pelo silêncio da Alta Autoridade da Comunicação Social, tão permissiva relativamente ao longo tempo de antena do comentador em horário nobre e a ausência de oportunidade para exercer o direito ao “contraditório” por parte do Governo.
O que parecia um episódio sintomático mas irrelevante veio a revelar-se afinal o apito de uma estranha panela de pressão. Por “estranha coincidência”, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu cessar sua colaboração com a TVI, na sucessão de uma conversa com o presidente da Media Capital, Miguel Paes do Amaral. E chamo “estranha coincidência” porque, a julgar pela versão oficial dos factos:

a) o Governo não exerceu qualquer tipo de pressão sobre a Media Capital ou sobre Marcelo para que este último moderasse o tom dos seus comentários (segundo o Governo);
b) a Media Capital não sofreu qualquer tipo de pressão da parte do Governo ou do PSD, nem exerceu qualquer tipo de pressão sobre Marcelo (segundo a Media Capital);

e finalmente

c) Marcelo decide “na sequência de conversa da iniciativa do presidente da Media Capital (...) cessar, de imediato, a colaboração na TVI” (segundo as suas próprias palavras).

Ora não é preciso ser um génio para perceber que algo não bate certo. Se o Governo não exerce pressões e a Media capital não sofre pressões, porque é que Marcelo decidiria cessar a colaboração com a TVI? Eis que a resposta veio do próprio PSD. Luís Filipe Menezes e Duarte Lima vieram resolver o mistério na TSF, afirmando tratar-se de uma manobra de vitimização do próprio Marcelo, com vista a colher apoio público que sirva de base à sua eventual candidatura à Presidência da República. Como sempre, lá está o ardiloso Marcelo com o seu maldoso espírito maquiavélico a trabalhar.
Mas se assim é, viriam a público declarações de tantas figuras do próprio partido do governo, entre as quais Marques Mendes e Cavaco Silva? Serão estas pessoas imprudentes ao ponto de julgar pelo que não sabem, ou terão uma ideia mais consistente do que se passou?

Algo não bate certo neste filme. Porque é que as afirmações do Ministro dos Assuntos Parlamentares (que chegou a catalogar os comentários de Marcelo de mentirosos) não mereceram da parte da TVI um claro repúdio e a defesa inequívoca do seu colaborador.
Seja o que for que se venha a apurar daqui para a frente, o mal já está feito. O governo pode (e eventualmente até deve) apreciar declarações de comentadores televisivos, mas dificilmente pode alegar não dispor de direito a exercer o contraditório. Até do ponto de vista legal, o governo dispõe de tempo de antena suficiente para se expressar nos termos que quiser. E deveria fazê-lo para dar a conhecer o seu trabalho e a sua obra, e também para divulgar de forma didática o seu entendimento da correcta expressão dos media e denunciar exageros que lhe sejam imputáveis. Mas de nada disso se trataram os comentários do Ministro Rui Gomes da Silva. A sua preocupação foi muito clara: o Professor Marcelo fazia mais mal ao governo do que os partidos da oposição todos juntos. E isto é que é o anedótico da coisa: o poder de Marcelo é o de conseguir manipular como fantoches os próprios agentes políticos, devido à sua permeabilidade à influência mediática. É o governo, na sua fragilidade, que põe Marcelo no pedestal de orquestrador político. Subscrevendo Pacheco Pereira, um governo forte estaria provavelmente mais preocupado com outras coisas e queria lá saber o que diz Marcelo. Mas este é um governo de gente fraca que apenas se gosta de rever em frente ao espelho controlado dos seus próprios agentes de imprensa.

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