[contra os canhões mentir, mentir]

Quinta-feira



Não deve ser fácil ser polícia das forças de intervenção. A maioria das vezes encontram-se em inferioridade numérica pelo que são treinados para lidar com a desvantagem. A estratégia é simples: avanço ruidoso com o objectivo de criar a debandada geral. Claro que, pelo caminho, tudo o que se atravessar à frente se arrisca a levar com o cacetete, do jovem turbulento à velhinha que atravessa a rua.
Um dos episódios mais caricatos e exemplares a que já assisti de uma intervenção policial passou-se no tempo das manifestações da Ponte 25 de Abril, quando o governo de Cavaco Silva quis promover o aumento das portagens. Como quase todos se lembrarão foram dias seguidos de manifestações, buzinões, passar portagem sem pagar, todas as diatribes e mais algumas.
Numa das noites reuniu-se uma manifestação de motards, na zona conhecida por “garrafão”. E lá andavam os rapazes de mota de um lado para o outro a exibir-se perante as forças de intervenção que estavam em fileira, quietas à espera da ordem de avançar e dos jornalistas que transmitiam tudo pela televisão.
A ordem chegou passado pouco tempo e os polícias avançaram ruidosamente em direcção ao grupo de motoqueiros. A debandada inicia-se, as motas aceleram e todos fogem para a ponte em direcção a Lisboa. Todos, menos uma motinha de baixa cilindrada onde, visivelmente, um rapaz jovem tentava ligar a ignição dando desesperadamente ao pedal, enquanto a sua namorada se segurava a ele por detrás, em visível pânico. E o rapaz pedala e pedala e a mota nada, até que a polícia chega junto deles e o rapaz com a namorada pura e simplesmente ficam quietos como se se rendessem, quase como se pedissem desculpa por existir.
E a polícia de intervenção, que está treinada para debandar uma multidão mas que não sabe o que fazer perante um manifestante solitário, cercou a mota e começou a arrear no casalinho com os cacetetes. Eis então que a situação parecia estranhamente invertida. Como uma súbita inversão de papéis, os vândalos de mota davam lugar a vândalos polícias, com sete ou oito matulões à pancada a um casal imberbe montado numa acelera.
Nunca mais me esqueci deste episódio. Sem estar aqui a atacar a importância do trabalho das forças de intervenção, a verdade é que o trabalho de “repor a ordem” não pode estar nas mãos de vândalos que varrem tudo o que têm na frente. Não estou a dizer que seja um trabalho fácil, mas estas pessoas têm de ser capazes (e especificamente treinadas para isso) de ajuizar lucidamente sobre a situação que enfrentam em cada momento. O que, como sabemos, raramente acontece.

A luta contra as propinas é uma das bandeiras mais apelativas para puxar pelos estudantes universitários. Quando toca ao bolso todos se queixam e os estudantes não são excepção. Eu também defendo que o ensino público, incluindo o universitário, seja gratuito. E quando digo gratuito digo gratuito mesmo, de borla, nem sequer um euro de propinas. Mas reconheço que o problema das propinas é, a maior parte das vezes, uma bandeira politizada como forma de agitar a malta, neste caso uma malta cheia de samaritanismo e vontade de abraçar uma causa qualquer. E que as associações de estudantes, muitas vezes, pouco contribuem para a discussão em torno da melhoria da qualidade do ensino, limitando-se a acenar com a guerra das propinas como forma de mostrar que está a trabalhar para o pessoal.
Seja como for, e ache eu o que achar, a verdade é que a manifestação de Coimbra correu mal. Perante a ameaça de invasão estudantil no Senado (que aprovou a propina máxima de 800 euros) foi preparada uma forte presença policial em torno do edifício. A situação culminou com uma carga policial e o lançamento de gás-pimenta sobre a multidão. O resultado foi a detenção de um estudante de jornalismo (acusado de agressão a um polícia) e seis feridos entre os estudantes que receberam tratamento hospitalar.

Perante isto, a polícia descreveu o ocorrido como uma “normal operação de contenção” e o ministro da Administração Interna Daniel Sanches afirmou não ter havido qualquer carga policial. Acrescentou que não tinha ouvido falar de gás nenhum, apesar de imagens da SIC fazerem prova de tudo o que ocorreu.
Julgo que é legítimo termos dúvidas em relação ao que se passou. Os estudantes excederam-se? Iniciaram a violência? Não é fácil responder, mas o ministro também não parece muito interessado preferindo fazer mais um exercício de fantasia em relação à actuação das forças políciais. Uma coisa é certa, honestidade não parece ser o lema do governo.
Tudo isto é exemplar de um dos problemas que resultam da falta de cultura democrática. A fixação das pessoas, especialmente grave nos agentes políticos, numa determinada posição política e na sua defesa, alterando a realidade para se encaixar nessa posição em vez de alterar a sua posição em função da realidade.
É uma forma de desonestidade individual e colectiva que corrói tudo o que pode haver de verdadeiro na sociedade democrática. E perante isto, a partir do momento em que alguém decide que é liberal ou conservador ou verde ou pelo aborto ou contra as girafas no jardim zoológico, nenhuma prova em contrário conseguirá entrar no cérebro desta pessoa. Ou, por assim dizer, todas as evidências serão manipuladas, invertidas e ajustadas até um “facto redondo” caber num “buraco quadrado”. A “verdade” torna-se maleável, como se por se afirmar que não se ouviu falar de uma coisa, ela pura e simplesmente não tivesse existido e se esfumasse no tempo.

E já agora, alguém viu por aí um Presidente da República?

[Um Detido e Vários Feridos em Confrontos Entre Polícia e Estudantes via Público]

[Coimbra: Vigília de solidariedade com estudante detido retomada às 09h30 via Público (ligações a outros artigos ao fundo do texto)]

[A vergonha, via A Cabra - Jornal Universitário de Coimbra (ligações a outros artigos na página principal do site)]

[Estudantes recebidos com carga policial, via As Beiras Online]

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