[liberal de esquerda]

Terça-feira

Decidi há vários anos que não embarcaria em nenhuma doutrina específica e me manteria aberto a aprender com todas elas. Na religião como na política, prefiro o papel de observador independente em vez de mergulhar na maré. Chamem-me egoísta mas a verdade é que não gosto de andar de mão dada com as multidões.
Quando há alguns meses fiz um desses irrelevantes quizzes políticos que circulam na net fui forçado a encarar um novo rótulo: left liberal. Não sei se sou eu que sou de esquerda ou se a esquerda é que é como eu. Seja como for nada tenho contra os rótulos e quem os quiser que fique com eles.

Esta minha atitude de afastamento político tem uma razão de ser na minha fraca cultura política. Confesso, eu nunca li tratados ideológicos nem pesquisei a fundo as minhas motivações nas doutrinas de outrem. É verdade que defendo a liberdade de escolha nas questões pessoais e que apoio a tomada de decisões centrais no que respeita à economia. É verdade que suporto a ideia de governação orientada para o equilíbrio sustentado na justiça social. É verdade que defendo a diversidade social e a igualdade de oportunidades. E vejo-me assim obrigado a rever uma boa parte de mim no termo left-liberal, segundo a definição americana.

O conceito de Liberal utilizado na Europa refere-se ao que os americanos chamam de Libertarian. Os Libertarians defendem a existência de um governo pequeno cujo papel está limitado a defender e arbitrar as disputas entre indivíduos privados. Não desejam assim a regulação governamental das esferas sociais e económicas, defendendo a “liberdade individual” em todas as áreas da vida.
Curiosamente, a corrente liberal de direita (portuguesa) parece rever-se na vertente económica do Libertarianism mas não necessariamente na vertente social (ou da liberdade de escolha do cidadão em assuntos da esfera pessoal). Concluo, com as minhas já assumidas limitações, que se trata de uma corrente política paradoxalmente conservadora.

Está por demonstrar que a liberdade económica (expressão demasiado lata para o que se trata efectivamente do livre arbítrio do mercado) confira mais liberdade ao cidadão. E é paradoxal que quem defenda a não-interferência estatal em questões da economia (mesmo nas áreas de reconhecido interesse público) exija desse mesmo estado a interferência em assuntos da esfera dos direitos pessoais nas questões de ordem moral ou social mais controversas. Será isto contraditório ou mesmo uma hipocrisia? Eu não sei, deixo apenas a pergunta e fico aberto a que alguém politicamente mais erudito me ilumine o caminho.

O que também não significa que o vá seguir.


[Che Guevara wearing a Bart Simpson T-shirt, cartoon de Matthew Diffee via Cartoon Bank]

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