[ground zero]

Quinta-feira



[um]
Ground Zero. Este é o nome dado ao lugar vazio deixado no centro da cidade de Nova Iorque onde as torres gémeas do World Trade Center colapsaram depois do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001.
A humanidade encontrou nesse dia o seu símbolo e o seu nome. Zero, ou perto de zero é o conhecimento humano das forças que motivam o comportamento humano individual, as dinâmicas sociais e a capacidade de as controlar. São essas as forças que motivaram os indivíduos por detrás dos eventos de 11 de Setembro. Desconhecidos e incontrolados, eles continuam a determinar o comportamento dos principais intervenientes dos nossos tempos.
Talvez o rumo determinante da América que hoje conhecemos tenha sido traçado pelo pós-segunda guerra mundial. Envolvida numa guerra fria e um processo crescente de militarização, lançou-se numa demanda expansionista de influência mundial contra o(s) comunismo(s). O processo de décadas transformou a economia militar e o armamento num pilar pesado do equilíbrio económico da América e da sustentação do modo de vida dos americanos.
Eis uma nação refém da sua própria estrutura de poder. Por isto dizia-me um amigo numa conversa ao serão que “ganhe Bush ou Kerry, quem ganha é a América”. Certamente, com Kerry a América não deixaria de ser uma superpotência dominadora e economicamente pressionante sobre o resto do mundo e muito particularmente sobre a Europa (ao nível financeiro, militar, científico, político, etc). O investimento militar e financeiro já colocado na invasão do Iraque tornaria impossível também a Kerry qualquer recuo da presença americana naquele país. Mas Kerry significaria o fim da influência política directa dos grupos económicos que têm determinado as decisões da administração Bush, indiferentes aos pesados custos que a sua política externa têm feito incidir sobre a sua própria população e o mundo.



[dois]
Esta fotografia foi tirada há exactamente uma semana numa manifestação popular de apoio à campanha de John Kerry no Wisconsin. A imagem tornou-se aos olhos de muitos um extraordinário sinal de esperança na mudança, entretanto perdida.
Apesar do desalento que se abate sobre todos os que alimentaram a ilusão de uma derrota de George Bush, é importante sermos capazes de olhar para além dos sentimentos e ver com maturidade e consciência aquilo que aconteceu. E o que aconteceu não se pode expressar em leituras simples.
Convém começar por olhar para os números: entre quase 115 milhões de eleitores votantes, mais de 55 milhões votaram na mudança – 3.7 milhões a menos dos que votaram em Bush. Tão importante como analisar as razões da sua vitória e as causas que mobilizaram o seu eleitorado é olhar também para estes 55 milhões de americanos que perderam, expondo a real fractura sociológica e política das “duas Américas”.
A América é um país extraordinário e cheio de contradições. As raízes fundadoras da cultura americana, tão bem expressas por Thomas Jefferson, estabeleceram em lei os princípios da democracia nos termos em que a conhecemos na sociedade contemporânea. Isto correspondeu a uma ruptura com todas as formas de governo até então conhecidas e impulsionou o difícil progresso em muitos temas sociais e humanos: da abolição da escravatura aos direitos das mulheres, do fim da perseguição religiosa à liberdade de expressão, da liberdade económica a tantas outras áreas da nossa vida.
Mas a grande construção americana é feita de contradições denunciadas por sintomas sociais que nos chocam e revoltam. Lutas de ódio racial, preconceito sexual, fanatismo religioso, posse de armas, pena de morte, eis alguns dos problemas ainda hoje latentes naquela sociedade.
Num país em crise económica, com mais desemprego, entregue a uma guerra com fim incerto, assolada pelo medo do terrorismo, venceu um candidato que tinha como principal ponto forte de campanha os “valores morais” (moral values). Apesar do discurso moderado de Kerry apelando à união dos americanos, é difícil acreditar que ela possa acontecer. Os 48% de eleitores que votaram no democrata não votaram apenas a favor de uma alternativa, votaram também contra a outra. Entregues à perplexidade de compreender o que aconteceu, dificilmente serão capazes de esbater o fosso que se tornou mais largo e visível nos últimos quatro anos e particularmente durante a campanha.
O medo ganhou o dia. O medo do terrorismo. O medo dos estrangeiros. O medo dos liberais. O medo dos gays.
O medo deles próprios.



[três]
Encruzilhada. Um homem promete atravessar o trilho da tempestade e dos perigos. Outro homem aponta a direcção de tempos melhores e um caminho de esperança. Os americanos decidiram seguir o primeiro homem, só porque garante ter o guarda-chuva maior.
Deus os abençoe.

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